segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Infidelidade: O lado científico que há por trás da “pulada de cerca”.



Série Ensaios: Sociobiologia

Por: Claudia Carolina de Faria, João André Martinson Salesbram, Isabelle Christine Strachulski, Marcelle Cirio Leite.

Acadêmicos do Curso de Ciências Biológicas.
“O assistente de um supermercado foi recepcionado pelas três namoradas no aeroporto de Londres e fugiu com a avó ao ser confrontado por elas. O curioso caso aconteceu neste sábado (13/09/2014), quando Charlie Fisher, 20 anos, voltava para casa depois de passar o feriado com a família na Alemanha. Ele namorava ao mesmo tempo a estudante Becky Connery, 17 anos, Lizzie  Leeland-Cunningham, 19 anos, e uma outra garota que preferiu não ser identificada. Todos os relacionamentos já tinham ultrapassado a marca dos seis meses quando as jovens descobriram que compartilhavam o rapaz. Tudo começou quando Charlie viajou no feriado, e Becky descobriu que estava sendo traída por ele. A estudante entrou em contato com as outras namoradas do jovem, e juntas, as três planejaram humilhá-lo no meio do aeroporto quando ele voltasse da viagem” (Correio Da Bahia, 2014).
Logo no início de sua vida, o ser humano reconhece um conjunto de padrões de comportamento que torna possível interagir e adaptar-se ao ambiente em que vive. Mesmo antes de adquirir comportamentos mais complexos, já existe nele uma predisposição para que a vinculação afetiva e social se concretize (Saud & Tonelotto, 2005; Carvalho & Guimarães, 2002). Quase todo o comportamento social envolve alguma forma de comunicação, como sons, cheiro, visão e toque. Os humanos possuem uma percepção de cheiros pouco desenvolvidos comparado a alguns mamíferos, principalmente o cachorro. Além disso, há espécies que utilizam dos sinais químicos para comunicar limites territoriais e estados reprodutivos (Neto et al. 2009). A organização social e o sistema de acasalamento de uma espécie podem ser definidos a partir de interações de fatores ecológicos, demográficos e do grau de parentesco entre os indivíduos da população (Lobato apud Yamamoto e Araújo, 1991), com a vida em grupo influenciando em comportamentos como estratégia de dispersão e reprodução (Kerth, 2008).
Uma das características comuns entre a maioria dos animais é a estacionalidade reprodutiva, favorecendo a ocorrência dos nascimentos em um momento específico do ano, geralmente na primavera, pois nesta época há boas condições climáticas e disponibilidade de alimentos (Ptaszynska, 2007). A monogamia é rara entre os mamíferos, sendo observado apenas em alguns roedores, canídeos e primatas (Santos, 2003 apud Snowdon, 1990; Carter et al., 1993; Asa, 1997). Nessas espécies pode-se observar alguns comportamentos, como a preferência por um determinado parceiro, ausência de adultos não parentes no território defendido pelo casal, exibição da corte através do macho e sua participação efetiva no cuidado com a prole (Santos, 2003; Kleiman, 1977). O sistema monogâmico pode ser identificado a partir de três critérios: a exclusividade no acasalamento, a associação do par e a união dos esforços do casal no cuidado parental. Entretanto, a exclusividade no acasalamento é muito difícil de ser investigada devido a dois problemas. O primeiro é a certeza de que o par mantém exclusividade sexual, pois dados de cópulas furtivas muitas vezes deixam de ser registrados pela dificuldade na observação de determinadas espécies. O segundo aspecto diz respeito à paternidade em relação à prole. Na utilização de marcadores genéticos, geralmente é descoberto que o parceiro da fêmea não seja pai de todos os filhotes (Santos, 2003; Dewsbury, 1987). Por estas e outras razões, os mesmos autores sugerem que a monogamia em animais dificilmente poderia ser comprovada. Segundo (Viegas, Moreira, 2013), é difícil definir um conceito de infidelidade, pois existe divergências de autores nas situações que podem ser assim consideradas, sendo que por mais que o aspecto sexual seja o mais abordado existe outros aspectos que estão sendo citados como por aspecto emocional.
A infidelidade por muito tempo foi vista como uma forma de desonra a sociedade principalmente quando praticada por uma mulher, sendo esta punida por diversos castigos físicos dependendo dos costumes do país, enquanto a traição masculina não era vista como algo que manchasse a honra da mulher e da família, sendo considerado um problema intimo e não algo que afetasse a sociedade como era o caso de traições femininas (Carneiro et al, 2009, Santos 2008). Segundo reportagem publicada no site da Revista Veja castigos físicos são aplicados até hoje em países Islâmicos, existindo mulheres que são condenadas a prisão, outras condenadas a morte por métodos como apedrejamento, enforcamento, tiros, em alguns países são enterradas até o pescoço, entre outros castigos que podem variar dependendo do país. Com o passar dos anos a mulher foi ganhando mais independência e a partir do momento que casamentos por amor foram sendo permitidos a igualdade entre os sexos foi ficando mais presente (Santos, 2008). Segundo Santos, (2008) atualmente existe uma maior liberdade para a escolha dos parceiros, a escolha de quem iremos amar, porém isso não garante que seremos correspondidos, gerando sentimentos como o ciúmes. Viegas & Moreira, (2013) afirmam que um envolvimento emocional/sexual entre uma terceira pessoa em um relacionamento é sentida como uma quebra da confiança e do compromisso. No ocidente o costume é o casamento monogâmico, onde é exigido a exclusividade tanto no sentido sexual como emocional do parceiro, levando em consideração a ideia do amor romântico onde se espera que a pessoa qual se esta em um relacionamento proporcione a felicidade ao outro, não só em um casamento propriamente dito, mais em qualquer relação que se estabeleça um compromisso (Zerbini, 2014).
A infidelidade entre homens e mulheres tem razões diferentes, segundo Laís Ranna, especialista em relacionamentos e vice-presidente de operações da Ohhtel, as mulheres traem por não sentirem afeto e carinho por parte de seus parceiros, ou seja, valorizam o sentimento do amor e só querem o divorcio se acham um partido melhor que seja carinhoso e um bom partido financeiramente, caso contrário se elas estiverem emocionalmente satisfeitas a traição é mais difícil de acontecer. Já para a psicoterapeuta Sandra Samaritano, de São Paulo (SP) as mulheres estão mais exigentes com relação a satisfação sexual, e procuram sem remorso fora do casamento, se não estão satisfeitas com o parceiro. Ainda segundo Laís, para os homens os motivos da traição é puro e simplesmente o sexo, sendo a falta dele, tédio, procura por mulheres mais atraentes e tendo a oportunidade de trair, as causas da infidelidade. O modo com que homens e mulheres encaram a traição também é diferente.
As mulheres tendem a perdoar com mais facilidade uma traição, por que acreditam que o homem só quer sexo, não existindo amor na ocasião, diz Maura de Albanesi. Além de pensarem na família, na manutenção do relacionamento e na história vivida pelo casal afirma a psicóloga Heloísa Schauff, de São Paulo (SP). Já para o homem é mais difícil de aceitar uma traição por que segundo os autores Fabiano Rampazzo e Ismael Araújo quando uma mulher trai quer dizer que ela tem algum tipo de sentimento ou relação amorosa com o outro homem, não é apenas sexo que elas querem, são capazes de mudar os planos por causa do novo amor, ao contrário do homem que após conseguir o sexo volta para a sua mulher como se nada tivesse acontecido. Outro motivo que torna mais difícil para o homem aceitar é o pensamento machista da sociedade que permite o homem transar com várias mulheres, mas que não tolera o contrário afirma a psicoterapeuta Maura de Albanesi, também da capital paulista. Segundo Zatz, 2000 no livro “ O animal moral” o autor Robert Wright afirma que, em relação a infidelidade, as razões genéticas são mais fortes que as razões morais, pois seria uma vantagem evolutiva gerar descendentes geneticamente melhores. Estudos populacionais afirmam que a taxa de falsa paternidade seja da ordem de 10%.
Segundo Ambrojo, 2008 cientistas do Instituto Karolinska na Suécia afirmam que os homens que não possuem a variante 334 do gene AVPR14 possuem maior capacidade de compromisso com sua parceira, já os que possuem uma ou duas cópias esta variante, estão propensos à cometer adultério.  O estudo foi realizado com 1.100 pessoas (550 homens gêmeos e suas parceiras) e observou-se a presença da variante 334 em dois de cada cinco desses homens. Segundo O Globo, 2011 a motivação a cometer o adultério vem da forma como o cérebro processa a dopamina (neurotransmissor  ligado à sensações de prazer).  Segundo BBC Brasil, 2004 o pesquisador britânico Tim Spector da Unidade de Pesquisa de Gêmeos do St. Thoma’s Hospital, observou em seu estudo com irmãs gêmeas que se uma delas possuísse um histórico de infidelidade, sua irmã teria 55% de chance de apresentar este problema também. De modo geral apenas 23% das mulheres traem seus parceiros. Porém, devemos deixar claro que, os homens e mulheres que apresentam o “gene da traição” não irão necessariamente ser pessoas adúlteras, pois a expressão desse gene irá depender não só de fatores biológicos, mas também de fatores psicológicos e sociais.
No mundo animal a monogamia também se faz presente em algumas espécies como por exemplo corujas, araras, primatas (alguns), pinguins, Cavalo-marinho. Essa relação de monogamia animal pode ser dividida em dois tipos a monogamia social e a monogamia sexual ou genética. Na primeira, dois indivíduos se unem formando um casal com cooperação na criação dos filhotes, na segunda é garantida exclusividade sexual ao outro, e ambos os casos são raros. Estudos realizados com 180 espécies de diferentes pássaros apenas 10% eram monogâmicos sexualmente. Nos mamíferos mesmo a monogamia social é rara cerca de 3% a 10%, testes de DNA comprovam que em muitos desses casos não existe monogamia sexual, porém um roedor que habita as montanhas da California foi alvo de um estudo   realizado pela  Universidade do Texas que testou o DNA de 28 famílias desses roedores e não encontrou nenhum caso de discordância do DNA do pai mostrando que eles aparentemente apresentam monogamia sexual (Drauzio). Reis (2009) diz que existe uma diferença na monogamia para machos e para fêmeas, já que as fêmeas nascem, muitas vezes com um número de óvulos pré-determinados e não podem procriar durante a gestação, isso levaria o macho a poligamia, pois poderia passar a diante mais genes, porém existe a necessidade de cuidado com os filhotes que em alguns casos o macho participa, no caso das aves existe a necessidade de incubação dos ovos e depois do cuidado com os filhotes e a saciar a fome dos mesmos, sendo essa necessidade de cuidado com os filhotes uma das principais causa da monogamia em grande parte das aves. Reis (2009), afirma que mesmo entre as aves monogâmicas existe traição dos machos, porém ele só ajudará a cuidar da primeira fêmea, assim como para a fêmea também seria vantajoso ser polígama em um território de boa qualidade que se manter fiel em um território de má qualidade.  A infidelidade pode representar algumas vantagens para a propagação dos genes no reino animal. Uma pesquisa realizada na Universidade de Macquarie, em Sidney com pássaros da espécie Erythrura gouldiae conhecidos como Diamantes gould, demonstrou que as fêmeas aceitaram outro parceiro quando colocados em suas gaiolas, copulando com dois machos (o seu parceiro e o outro) quando os filhotes nasceram os cientistas fizeram testes de DNA e descobriram que as fêmeas desses pássaros são capazes de selecionar o melhor esperma para fertilizar seus ovos, o esperma fica por dias mantido em seu trato reprodutivo e os cientistas acreditam que os tecidos femininos e produtos químicos produzidos pela fêmea favoreceriam o esperma considerado bom e atacariam o outro, ou uma segunda teoria seria que a escolha do melhor esperma ocorressem na superfície do voo, onde apenas o melhor fosse capaz de penetrar a membrana (Ziegler, 2010).
Nós como futuros biólogos acreditamos que a infidelidade para os animais é importante, pois há a seleção do melhor parceiro, para obter os melhores genes e com isso garantir que as futuras gerações sejam formadas por indivíduos aptos para a reprodução. Porém, para os seres humanos há um ponto negativo, a pessoa ao descobrir que seu parceiro foi infiel se desestabiliza emocionalmente, podendo cometer crimes, suicídio, ou não querer mais se relacionar afetivamente com outra pessoa, deixando de propagar seus genes.


O Presente ensaio foi elaborado para disciplina de Etologia, tendo como base as obras:

BBC Brasil.com. 2004. Genes explicariam traição feminina, diz cientista. Disponivel em : < http://www.bbc.co.uk/portuguese/ciencia/story/2004/06/040607_geneml.shtml > Acessado em 05/09/2014
Carneiro, C. A.; Martini, C. F.; Rodrigues, E. L.; Oliveira, M. A.; Romero, N. S.; Oliveira, R. A. Infidelidade feminina na visão de homens e mulheres: um estudo à luz da teoria das representações sociais e de gênero. PSICOLOGIA IESB, 2009, VOL. 1, NO. 1, 34-41
Carvalho, A. & Guimarães, M. (2002). Desenvolvimento da criança de 0 a 6 anos: natureza e cultura em interação. Desenvolvimento e Aprendizagem, pp. 31-50.
Dewsbury, D. A. (1987). The comparative psychology of monogamy. Nebraska Symposium of Motivation, 35, 1-50.
Kleiman, D. G. (1977). Monogamy in mammals. Quartely Review in Biology, 52, 39-69.
Neto, J. G.; Teixeira, F. A.; Nascimento, P. V. N.; Marques, J. A. (2009). Comportamento social de ruminantes. Revista Eletrônica Nutritime, 6(4), 1039-1055.
O Globo. 2011. Gene da infidelidade está presente em uma a cada quatro pessoas. Disponivel em: < http://oglobo.globo.com/sociedade/saude/gene-da-infidelidade-esta-presente-em-uma-cada-quatro-pessoas-2914064> Acessado em
01/09/2014
Reis, J. 2009. A monogamia entre animais, por José Reis. GGN O Jornal de Todos os Brasis. Disponível em:< http://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/a-monogamia-entre-animais-por-jose-reis>  Acessado em 01/09/2014
Santos, C. V. (2003). Sistema monogâmico de acasalamento e estratégias reprodutivas dos pequenos primatas neotropicais. Revista de Ciências Humanas, 34, 335-363.
Santos, N. A. Percepções de homens e mulheres sobre a infidelidade nos relacionamentos amorosos contemporâneos. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharel em Psicologia). Universidade do Vale do Itajaí. Biguaçu, 2008.
Saud, L. F. & Tonelotto, J. M. F. (2005). Comportamento social na escola: diferenças entre gêneros e séries. Psicologia Escolar e Educacional, 9(1), 47-57.
Varella, D. O enigma da monogamia. Dr Drauzio. Disponivel em : < http://drauziovarella.com.br/sexualidade/o-enigma-da-monogamia/    >  Acessado em: 01/09/2014
Viegas, T.; Moreira, J. M. 2013. Julgamentos de infidelidade: Um estudo exploratório dos seus determinantes. Estudos de Psicologia, 18(3), julho-setembro/2013, 411-418.
ZATZ, M. Projeto genoma humano. São Paulo em Perspectiva, 2000: 14 (3) 48-52.

Zerbini, M. I. S. 2014. INFIDELIDADE - O virtual invade a conjugalidade: O que buscam os usuários de sites de infidelidade. Dissertação (Doutorado em Psicologia clínica). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
 Ziegler M. F. 2010. Entre pássaros, trair o parceiro pode ser vantajoso. Ultimo segundo. Disponivel em : < http://ultimosegundo.ig.com.br/ciencia/entre-passaros-trair-o-parceiro-pode-ser-vantajoso/n1237754212660.html > Acessado em 01/09/2014

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