segunda-feira, 18 de julho de 2011

Você já cometeu o pecado do antropomorfismo???


Certamente sim! Embora o antropormofismo seja considerado um dos maiores pecados no meio científico - principalmente na área de comportamento animal - parece fazer parte da nossa evolução e provavelmente foi um dos elementos promovedores da forma como nosso cérebro se estruturou. Procuramos nos reconhecer na natureza: animais, plantas e até objetos inanimados. O Antropormofismo é o uso de características humanas para descrever ou explicar o comportamento de animais não humanos bem como a atribuição de características humanas a criaturas não humanas ou objetos inanimados.

Bernard Rollin é um filósofo moderno que debate - sem receios - sobre os sentimentos dos animais e em sua obra sobre a senciência da dor ressalta que a aversão ao antropormofismo é uma herança do legado de Descartes. Os cientistas usaram a visão dos animais como máquinas complexas para endossar suas manipulações invasivas como a vivesecção sem anestesia. A falta de crença na capacidade mental dos animais e a consciência de si e do meio, inclusive da dor, era apoiado pela incapacidade de ser provada cientificamente, embora seja óbvio inferir que um animal está ou não sofrendo diante de uma injúria física ou psicológica. Desta forma, a “ideologia científica” da ciência e filosofia subseqüente passou a adotar essa visão como um dogma, não criticado, nem discutido, apenas imposto aos jovens cientistas sem levar em consideração a própria continuidade filogenética Darwiniana - que mostrou que o homem compartilha a morfologia, fisiologia e os processos mentais com outros animais. A noção que a ciência é livre de valores e livre de interação com a ética e o senso popular, também foi utilizada como justificativa para ferir os animais sem a promoção de nenhum controle da dor. Segundo Rollin, a ciência moderna – ao contrário da Aristotélica – não sente nenhuma necessidade de estar de acordo com o bom senso ou a experiência do cidadão comum – por isso Descartes colocou em dúvida o que sabíamos pela experiência, ou seja, apenas o que era observável e testável era real para ciência, devendo ser excluído julgamentos éticos e relacionados a experiências subjetivas. Antes de Descartes, nenhum pensador negou a senciência dos animais, porém embora, reconheciam a dor animal como real, não lhe era creditada importância ética. E mesmo hoje o ceticismo continua mesmo diante de estudos bioquímicos evidenciando a presença de endorfinas em animais (substâncias anestésicas naturais), em que anestésicos e analgésicos são testados em animais, similaridade do comportamento da dor e nossa empatia com um ser com dor. Deve-se ressaltar que o pensamento igualitário foi raro antes do iluminismo, e nem mesmo aos humanos era conferido um status moral igualitário, como exemplo tem-se a pequena preocupação com a dor dos escravos. O autor faz uma referência muito interessante à forma como os animais eram tratados desde os tempos bíblicos segundo a prática do “bom-pastor” e como os animais passaram a ser tratados como “produtos” dentro de uma escala industrial.

Essa visão mecanicista e esse distanciamento do homem diante da natureza ainda é uma realidade muito forte. Talvez assustadoramente mais forte entre os cientistas do que entre a comunidade “leiga” – a qual pode usar e abusar do antropomorfismo entendendo as emoções dos animais por desenvolverem uma empatia e uma compaixão se colocando naturalmente no lugar deles. Cientistas matam sem dó os animais em prol de suas pesquisas – obviamente que muitas delas visando a manutenção da espécie – mas a um custo individual muito alto. Ao se referir ao tema Bem-Estar-Animal, esses cientistas consideram como uma pseudociência, algo equivalente à parapsicologia para psicologia. Nos estudos comportamentais atribuir qualquer sentimento ou emoção – as quais crêem serem exclusivamente humanas – ou dar nomes aos animais objetos de estudo é condenado aos berros.

Alexandra Horowitz e Marc Bekoff publicaram um belíssimo artigo sobre a reflexão do antropormofismo através da observação da interação do homem com o cão. Segundo os autores, o antropormofismo deve ter se consolidado em nossa mente - como um drive ou mapa mental – a pelo menos 40.000 anos, quando o homem primitivo passou a representar o humano na forma animal e vice-versa. Porém, bem antes disso, uma caçada bem sucedida era decorrente da previsão do comportamento da presa, processo mental que culminou no cérebro moderno, se constituindo de um produto da seleção natural na tentativa de adaptação ao ambiente. Logo, o antropormofismo - como uma forma de identificarmos nossas emoções nos outros animais – é um processo mental consolidado pela natureza que nos permitiu estabelecer as inter-relações com espécies distintas. Inclusive pessoas com lesões bilaterais nas amídalas não consegue antropormofizar. Assim, a identificação dos elementos de comunicação no comportamento do outro animal leva o ser humano a atribuir compreensão a eles, uma vez que o animal apresenta os mesmos elementos que efetivam a comunicação entre humanos. Obviamente que alguns animais são mais propensos a antropormifização do que outros, o que está relacionado à proximidade filogenética e à propensão à domesticação. Logo, os cães se encaixam no melhor modelo para esse tipo de estudo seguindo o pensamento de que a domesticação produziu espécies adaptadas à interpretar e produzir sinais compreensíveis para os humanos, favorecendo um dialogo entre os comportamentos visíveis e os aparentemente inacessíveis - como estados internos dos animais.

A resistência em reconhecer que os animais têm emoções análogas às nossas - e que essas foram fixadas pela seleção - devido seu valor na sobrevivência do animal - é uma herança do legado de Descartes, uma negação velada, para justificar as atrocidades que são feitas com os animais, para subsidiar a sobrevivência e o conforto da vida dos humanos, o desenvolvimento tecnológico, a vaidade da beleza e da subjugação de feras selvagens e, mais atualmente, a própria conservação da natureza. Precisamos ser mais honestos, humildes e abertos para as novas descobertas das neurociências e refletirmos sobre o quanto da nossa humanidade é exclusivamente nossa e por que a natureza nos brindaria apenas nós com a consciência da felicidade, da tristeza, da raiva.

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