domingo, 24 de maio de 2015

Nossa Ligação Emocional Com Os Animais



Série Ensaios: Ética Animal

Por Renzzo Henrique Lepinsk Lopes
Acadêmico do curso de Ciências Biológicas da PUCPR


Will era um leão que foi resgato de um circo que se apresentava no Rio de Janeiro. Viveu 13 enjaulado sem espaço e sem liberdade até que foi resgatado pelo Rancho dos Gnomos, uma associação não governamental que acolhe os tipos de espécie animal em situações de risco e vítimas de crime ambiental, como tráfico, indústria da pele ou circo, que foi o caso de Will.




O Rancho dos Gnomos existe desde 1991 e oferece suporte aos órgãos oficiais brasileiros (IBAMA, Polícia Militar Ambiental, Polícia Federal, Defesa Civil, Secretarias do Meio Ambiente, entre outros), acolhendo animais 24 horas por dia. Apesar de já ter sido registado em 2006, o vídeo só foi publicado recentemente pela organização como parte de uma campanha para arrecadação de recursos para o Rancho que abriga cerca de 230 animais.  No vídeo podemos ver a reação do leão, ao ser solto em um espaço mais adequado, com terra, grama, árvores. Will morreu em 2011. No entanto, pode aproveitar a liberdade dos últimos cinco anos da sua vida. Segundo Marcos Pompeu, fundador da associação brasileira, que acompanhou Will durante estes últimos anos, "ele foi um leão feliz", garante. 
António Damásio, um dos maiores nomes da neurociência na atualidade, explica a diferença entre emoção e sentimento em uma entrevista à revista Veja: A emoção é um conjunto de todas as respostas motoras que o cérebro faz aparecer no corpo em resposta a algum evento. É um programa de movimentos como a aceleração ou desaceleração do batimento do coração, tensão ou relaxamento dos músculos e assim por diante. Existe um programa para o medo, um para a raiva, outro para a compaixão etc. Já o sentimento é a forma como a mente vai interpretar todo esse conjunto de movimentos. Ele é a experiência mental daquilo tudo. Alguns sentimentos não têm a ver com a emoção, mas sempre têm a ver os movimentos do corpo. Por exemplo, quando você sente fome, isso é uma interpretação da mente de que o nível de glicose no sangue está baixando e você precisa se alimentar. As emoções raramente aparecem em forma pura, isoladas das outras emoções. Nas pessoas, raiva e medo, medo e amor, amor e vergonha, vergonha e mágoa sempre convergem em situações particulares (MASSOM e MCCARTHY, 1998). O Dr. Jaak Panksepp, neurocientista, chama os centros emocionais de “emoções fundamentais” porque “geram sequências bem organizadas de comportamento que podem ser evocadas por meio de estimação elétrica cerebral localizada”, ou seja, quando os sistemas cerebrais de um ou mais centros de emoções básicas são estimulados, o animal apresenta os comportamentos correspondentes (GRANDIN & JOHNSON, 2010).

As emoções fundamentais foram descritas pelo Dr. Jaak Panksepp da seguinte forma: 1. BUSCA: O impulso básico para procurar, investigar e dar sentido ao ambiente. Os gatos que vivem soltos não precisam de incentivos para acionar o seu sistema busca. Eles podem caçar e explorar tudo quanto há. 2. RAIVA: O Dr. Panksepp acredita que a emoção básica da raiva evoluiu da experiência de ser capturado e imobilizado por um predador. Por exemplo, quando alguém imobiliza os braços de um bebê humano junto ao corpo dele, o bebê fica furioso. A frustração é uma forma amena da raiva, desencadeada por uma coibição mental quando você não pode realizar alguma coisa que está tentando fazer. Por exemplo, um cão que não pode pular uma cerca quando vê um esquilo do lado de fora, é uma forma brande de raiva. 3. MEDO: Animais e humanos sentem medo quando sua sobrevivência é ameaçada de qualquer forma, desde o nível físico até o mental e o social. Por exemplo: um cachorro com medo põe o rabo entre as pernas e tenta fugir do que lhe causa medo. 4. PÂNICO: O sistema pânico evoluiu provavelmente da dor física. Por exemplo, todos os bebês, humanos e animais, choram quando a mãe sai e um bebê isolado, cuja mãe não volta, tem probabilidade de deprimir e morrer.

Eu como formando em Biologia acredito que os animais possuem emoções. Vários estudos vêm demonstrando resultados plausíveis desta capacidade. Hoje, a maioria dos cientistas concorda que todos os animais vertebrados – mamíferos, aves, répteis, anfíbios e peixes – são, em graus variados, sencientes. Neurocientistas vêm trabalhando com estímulos nos diferentes sistemas emocionais; quando essas partes são estimuladas no cérebro, tanto os humanos quanto os animais manifestam as mesmas emoções. Sendo assim, compartilhamos os mesmos centros de emoções básicas que os animais. Isto é muito importante para nós, donos de animais, uma vez que sabemos dessa nossa inter-relação com nossos queridos companheiros, temos a responsabilidade de cuidar do bem-estar e da manutenção dos sentimentos desses seres que nos são tão amados.



O presente ensaio foi elaborado para disciplina de Etologia I se baseando nas seguintes obras:

DARWIN, C. A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais (LSL Garcia, Trad.). São Paulo: Cia. Das Letras.(Trabalho original publicado em 1872), 2000.

GRANDIN, Temple; JOHNSON, Catherine. O bem estar dos animais. Editora Rocca, 2009.

MASSON, Jeffrey; MCCARTHY, Susan; CORTES, Paula. Quando os elefantes choram. A vida emocional dos animais. São Paulo, Geração Editorial, 2001.









Links dos vídeos:















 

sábado, 23 de maio de 2015

Diversão? Ou simplesmente crueldade?



Série Ensaios: Ética Animal

Por Gabriela Baptista
Acadêmica do Curso de Biologia PUCPR

Um caso amplamente divulgado na mídia em 08 de Abril de 2015, no qual a justiça obriga ao zoológico a devolver quatro animais (rinoceronte, elefante, lhama e um hipopótamo) ao circo Le Cirque. Embora os animais estivessem sendo bem cuidados pelo zoológico houveram denúncias de maus-tratos, culminando na condenação dos proprietários, os quais posteriormente recorreram e foram inocentados. (Matsuki, 2015). De acordo com o representante jurídico da entidade, Caio Ramos Peixoto, os animais estavam sendo tratados como objetos: "O processo judicial tratou os animais como bens confiscados. No zoológico, eles estão nitidamente mais saudáveis e menos estressados". Apenas entretenimento? Na realidade, o entretenimento é a área com maior diversidade de abusos de animais. E, provavelmente, também a menos justificável.


Os maus-tratos aos animais nasceu na crença bíblica de que Deus outorgou ao homem o domínio sobre todas as criaturas e do pensamento filosófico que se desenvolveu na época. (Dias, 2011). Atualmente ainda existe em vários setores - inclusive a constituição brasileira - da população um sentimento de que os animais são "coisas" e podem ser objeto de qualquer violência, não levando a punição os praticantes de tais atos. (Calhau, 2005). "Entende-se por “maus tratos” o ato de submeter alguém a tratamento cruel, trabalhos forçados e/ou privação de alimentos ou cuidados". (Calhau, 2005). No que diz respeito aos animais, a variedade de maus tratos vai bem além dessa definição.
No cotidiano os animais são usados  para uma enorme variedade de finalidades para entretenimento, criando sérios problemas para o bem-estar do animal,  e até mesmo para a preservação da espécie. O uso desses animais reflete uma crença de que esses animais existem para serem explorados e para ser usados para nossa diversão, incentivando a sociedade humana para atos de crueldade (Moura, 2014).
No mundo do entretenimento, o circo ocupa uma posição privilegiada entre todas as formas de diversão existentes. As apresentações de animais em circos possui uma ideia de que é engraçado ver animais silvestres coagidos, ou emocionante ver esses animais apavorados por um treinador que estala seu chicote. (Morris, 1967). Os circos alojam e confinam animais em jaulas pequenas, algumas vezes por até 24 horas por dia. Além de permanecerem enjaulados, os animais são acorrentados e permanecem sem liberdade para se comportar naturalmente. "Muitos treinadores ainda usam técnicas de reforço negativo que envolvem medo, submissão, privação e castigos físicos, que incluem espancamentos, chicoteamento e supressão de alimentos". (Kiley, 1990). Muitos circos não fornecem nem cuidados veterinários regulares e eficazes. Os animais que não são obedientes ou que já estão com a idade avançada para exibição podem ser levados a outros ambientes que não proporcionam chances de melhoria de qualidade de vida, como zoológicos e laboratórios de pesquisas (Kiley, 1990).
De acordo com o art. 32 da Lei nº 9.605 de 12 de Fevereiro de 1998 (BRASIL, 1998), “praticar ato de abuso, maus tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos confere ao réu, pena de detenção de três meses a um ano”. No Estado de São Paulo existe uma proteção maior aos animais, editada a Lei de Proteção aos Animais (nº 11.977/05) que proíbem a apresentação ou utilização de animais em espetáculos circenses, independentemente de existência de abusos ou outras formas de crueldade (Beluzzo, 2007). Infelizmente, na maioria das vezes os maus-tratos contra animais não são denunciados, pois já se encontram banalizados dentro da sociedade devido ao seu alto índice de ocorrência. (Delabary, 2012).
Eu como formanda de Biologia acredito que é preciso realizar um trabalho de educação dentro das comunidades a fim de que os animais não sejam mais vistos como objetos, ou como simplesmente um ato de entretenimento, denunciando as pessoas que expõe aos animais a essa realidade, visto que apenas o simples fato de serem obrigados a acompanharem um circo configura situação de maus tratos. A educação pode ser a principal ferramenta para amenizar essa triste realidade, uma vez que através deles pode ser feita a conscientização e a percepção da sociedade que a utilização de animais em circos é na verdade um ato de extrema violência, abusividade e crueldade contra os animais e que deve ser denunciada e evitada pelo Estado.

O presente ensaio foi elaborado para disciplina de etologia baseando-se nas obras:
BELUZZO, G.A.L. Decisão sobre maus tratos de animais de circo. São José dos Campos, 28 de fevereiro de 2007. Juiz de Direito Decisão sobre maus tratos de animais de circo.
BRASIL Lei nº 9.605, de 12 de Fevereiro de 1998. Dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente e dá outras providências. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 13 Fev. 1998. Seção 1, pg 1.
CALHAU L. B. Meio Ambiente e Tutela Penal nos Maus Tratos contra Animais. Fórum de Direito Urbano e Ambiental, Belo Horizonte, Edição 4, mar./abr. 2005. 
DELABARY, B.F. Aspectos que influenciam os maus tratos contra animais no meio urbano. Revista Eletrônica em Gestão, Educação e Tecnologia Ambiental REGET/UFSM (e-ISSN: 2236-1170). v(5), n°5, p. 835 - 840, 2012.
DIAS, E.C. A Defesa dos Animais e as Conquistas Legislativas do Movimento de Proteção Animal no Brasil. Ambiente Brasil. © Copyright 2000-2011.© Copyright 2000-2011© Copyright 2000-2011
KILEY, M. Animals in Circuses and Zoos: Chiron's World?. Editora: Aardvark Publishing. ISBN: 978-1872904023. May 21, 1990.
MATSUKI, E. Justiça obriga zoológico de Brasília a devolver animais apreendidos a circo. Uol. 8 de Abril de 2015.
MOURA, G. Qual é o preço que os animais pagam pela tua diversão? Zoos, aquários, circos e muito mais. Greenme, farei bem à Terra. 16 de Maio de 2014. Copyright © 2014 greenMe.com.br.